A ABORDAGEM INSTITUCIONAL NA ADMINISTRAÇÃO:
A PRODUÇÃO CIENTÍFICA BRASILEIRA ENTRE 1993 E 2003
Alexandre Reis Rosa1
Cláudia Coser2

RESUMO
A teoria das organizações no Brasil vem sendo enriquecida pela diversidade de correntes
epistemológicas, tais como humanista radical, estruturalista radical, funcionalisma e
interpretativista. O presente estudo enfatiza a análise da produção científica no campo da
Administração entre 1993 e 2003, tendo em vista o marco de introdução dos estudos da
Abordagem Institucional – fundamentada por um caráter interpretativo e de cunho
fenomenológico – no contexto brasileiro. A análise foca os cinco maiores periódicos de
Administração e suas respectivas publicações inseridas no período de análise. Constata-se um
percentual ainda baixo de artigos da área, bem como uma concentração geográfica e autoral.
Palavras-chave: abordagem institucional, estudos em administração, produção científica
brasileira, teoria das organizações, estratégia, gestão empresarial.

1

Bacharel em Administração pela UFPR e Pós-graduando em Gestão Estratégica de Pessoas pela FAE
Business School. E-mail: <alexandrereisrosa@hotmail.com>.

2

Mestre em Administração pela UFPR e Professora da graduação em Gestão da Informação do DECIGI/UFPR.
E-mail: <claudiacoser@hotmail.com>.

2

INTRODUÇÃO

A produção científica brasileira no campo da Administração tem sido alvo de
várias análises nos últimos anos (BERTERO, KEINERT, 1994; BERTERO, CALDAS, WOOD
JR, 1999; ARKADER, 2003; VIEIRA, 2003; LEAL, OLIVEIRA e SOLURI, 2003; BERTERO,
VASCONCELOS e BINDER, 2003; PACHECO, 2003; DAVEL e ALCADIPANI, 2003). Esta
preocupação é resultante, principalmente, do significativo crescimento quantitativo da área.
Considerando as publicações nos principais periódicos científicos e os trabalhos
apresentados em congressos da área, observa-se um crescimento de aproximadamente
100 % somente na década de 1990 (TONELLI, et alli, 2003). Porém alguns problemas têm
acompanhado este crescimento.
A qualidade falha, a aplicabilidade duvidosa, a inclinação funcionalista e a
confusão epistemológica são os principais problemas apontados nos inventários realizados.
Entre as abordagens utilizadas nas pesquisas, Bertero, Caldas e Wood (1999) destacam a
presença de um mainstream funcionalista, com características empíricas, positivistas e
sistêmicas. Outras abordagens de cunho humanista radical e interpretacionista vêm
ganhando espaço nas publicações e melhorando a qualidade da produção científica. Entre
elas, destaca-se a perspectiva institucional, que se enquadra na abordagem interpretativa e
apresenta uma posição espistemológica predominantemente subjetivista salientando a
construção social da realidade organizacional.
Considerando o exposto, o objetivo do referido estudo é pontuar a presença da
abordagem institucional na produção científica em Administração entre 1993 e 2003, tendo
em vista o marco de introdução dos estudos da Abordagem Institucional no contexto
brasileiro. O levantamento foca os cinco maiores periódicos de Administração no Brasil
(RAUSP, RAP, RAE, O&S e RAC) e suas respectivas publicações inseridas no período de
análise. São identificadas a frequência das publicações nestes periódicos, bem como seus
principais pesquisadores e as instituições em que atuam.

A ABORDAGEM INSTITUCIONAL

A Abordagem Institucional, conforme Scott (1995), aproxima seu foco sobre as
organizações, inicialmente com os estudos de Merton e Selznick, cientistas que sucederam
aos trabalhos de Durkheim, Weber e Parsons. Merton (1957), interessados na burocracia e
burocratização, discutem processos dentro das organizações, como a orientação de ações
em conformidade com regras e normas que interferem no alcance de propósitos da
organização (SCOTT, 1995). As organizações com o tempo são transformadas em
instituições, por serem sistemas sociais que possuem metas e procedimentos estabelecidos,

3

tendo valores por trás de requerimentos técnicos. Pois não são racionais como pretendem
ser, mas veículos para incorporação de valores.
Pode-se afirmar que a Abordagem Institucional tem sido capaz de oferecer
explicações aos processos atrelados ao que impera sobre as relações sociais, por
preocupar-se com o que há de cristalizado na sociedade em termos de valores, ações,
padrões que são construídos e legitimados a partir das relações entre os diversos atores
organizacionais. Por esta razão, entre outras, que o institucionalismo tem sido caracterizado
“como o processo pelo qual organizações e procedimentos adquirem valor e estabilidade”
(HUNTINGTON 1968, p. 12). Em ambientes institucionalizados, o comportamento é mais
estável e previsível, podendo estar economicamente associado à redução de custos
derivados das incertezas na relações entre os atores, o que sob a perspectiva sociológica,
consiste numa realidade socialmente construída que acaba sendo aceita como verdade –
take for granted – e possui legitimidade (BERGER e BERGER, 2002).
O conceito de instituição, dessa forma, constitui-se num dos mais importantes
para a compreensão da Abordagem Institucional. Meyer, Boli e Thomas (1994) visualizam
as instituições como regras coletivas dando significado coletivo e valor a entidades
particulares e atividades, integrando-as dentro de esquemas maiores. A institucionalização,
para Meyer, Boli e Thomas (1994, p. 10) seria “o processo pelo qual um dado conjunto de
unidades e padrões de atividade vem a ser normativa e cognitivamente possuído num local,
e praticamente considerado como legítimo”.
A estabilidade nas e entre as organizações passa a ser uma das questões
centrais da indagação dos institucionalistas (FACHIN e MENDONÇA, 2003). Neste sentido,
a institucionalização é considerada um processo ligado a uma necessidade de
sobrevivência, de reconhecimento e de adaptabilidade aos interesses que existem em seu
ambiente (SELZNICK, 1971).
Dentre as contribuições da Abordagem Institucional à Teoria Organizacional,
destaca-se a ênfase na influência do ambiente, ao colocar a legitimidade e o isomorfismo
como fatores vitais para a sobrevivência da organização (FONSECA, 2003). O ambiente das
organizações passa a ser conceituado não somente como um lugar de suprimento de
recursos e alvo de produção e rendimento, mas como uma fonte de significados para os
membros da organização. As organizações com esse enfoque são mais que sofisticação
técnica; são o resultado da progressiva racionalização de regras culturais que providenciam
base independente para a construção das organizações. Como afirmam Vieira e Carvalho
(2003), alguns temas são compartilhados entre os pesquisadores desta abordagem, sendo
ela de ordem teórica e prática. Versam entre os centrais: estruturas institucionais, estratégia,
esquemas interpretativos, isomorfismo e campo organizacional.
As estruturas institucionais consistem nas pressões de natureza regulativa,
normativa e cognitiva, aceitas no campo organizacional e que são definidas e redefinidas a

4

partir da interpretação e interação entre os atores, estabelecendo critérios para a
legitimidade das ações. A legitimidade, amplamente abordada por institucionalistas, sugere
que os ambientes institucionais exercem pressão sobre as organizações para justificar suas
atividades, o que motiva-as a incrementar a legitimidade mediante a acomodação com as
estruturas institucionais prevalecentes (SCOTT, 1995). A conformidade das organizações
com os critérios socialmente construídos, constitui-se numa questão de sobrevivência para
as organizações (MEYER e ROWAN, 1991; SCOTT, 1995; MACHADO-DA-SILVA e
FONSECA, 1996).
As

estruturas

institucionais

regulativas

constrangem

e

regulam

o

comportamento por meio de regras, monitoramento, sanções e punições de maneira formal.
A legitimidade das ações dos atores está associada ao cumprimento destes requerimentos
(Scott, 1995), o que reduz as incertezas entre os atores de uma estruturação social quanto
às suas ações, na medida em que as interações vão compartilhando significados (MARCH e
OLSEN, 1989; KLIJN, 2001) que são alterados ou reproduzidos mediante as interações
entre os participantes num processo de interpretação constante da realidade (BERGER e
LUCKMANN, 1985).
Quanto às estruturas institucionais normativas, introduzem uma dimensão
prescritiva, avaliativa na vida social, incluindo valores e normas que definem os significados
legítimos para fins validados (SCOTT, 1995), enraizados na lógica do adequado (MARCH e
OLSEN, 1989) perfazendo a rotina dos atores da rede em diferentes posições e papéis
sociais, revelando aspectos morais e alinhamento cultural.
As estruturas institucionais cognitivas também sustentam significados que são
compartilhados entre os atores acerca das estruturas regulativas e normativas, ou seja da
realidade que cerca os atores, que constróem e continuamente negociam a realidade social,
num contexto que contempla estruturas simbólicas, objetivas e externas que oferecem
orientação. As estruturas cognitivas representam modelos de comportamento individual com
base na subjetividade, compreensões internalizadas – frutos da interpretação da realidade
social em que se atua, servindo como categorias aplicadas para o pensar e o agir, bem
como de base para a construção da identidade dos atores (SCOTT, 1995).
Com base na escola cognitiva do pensamento em estratégia (MINTZBERG et alli,
2000) e tendo a noção de que o ambiente está na base dos estudos que entendem
organizações enquanto sistemas abertos (MACHADO-DA-SILVA, 1998), tem-se uma
realidade socialmente construída pelo homem, apresentada como um mundo intersubjetivo,
cuja interiorização depende da forma como o indivíduo a interpreta, apreendendo-a ao
mesmo tempo em que a produz (BERGER e LUCKMANN, 1985). Com isso, a perspectiva
institucional no campo da estratégia passa a contar com as categorias analíticas de
ambiente, interpretação e estratégias de ação.

5

Sobre o ambiente, tem-se sua divisão em técnico e institucional. O ambiente
técnico é caracterizado pela troca de bens e serviços, enquanto o ambiente institucional
conduz ao estabelecimento e à difusão de normas de atuação, necessárias para o alcance
da legitimidade organizacional (MACHADO-DA-SILVA; FONSECA e FERNANDES, 2000).
Porém, cabe ressaltar que a separação conceitual entre ambientes técnico e institucional é
analiticamente relevante, mas não pode e nem deve implicar na idéia de que existem
objetivamente dois ambientes, bem como, que a apreensão do ambiente técnico e do
ambiente institucional em particular, requer a distinção de níveis de análise local, regional,
nacional e internacional. Esta distinção de níveis decorre da possibilidade concreta de
existirem diferentes valores e significados atribuídos pelos atores sociais, em diferentes
contextos de referência (MACHADO-DA-SILVA e BARBOSA, 2002).
DiMaggio e Powell (1991) enfatizam que o conceito que melhor captura o
processo de homogeneização é o isomorfismo, processo que constrange e força uma
unidade em uma população a assemelhar-se com as outras unidades que estão expostas às
mesmas condições ambientais. O conceito de isomorfismo também abrange questões
relacionadas à competição por poder político, legitimidade institucional e conveniência
social. Os autores especificam três isomorfismos, o coercitivo, o normativo e o mimético.
O isomorfismo coercitivo, de acordo com DiMaggio e Powell (1983) é o resultado
de pressões formais e informais exercidas por uma organização sobre outra que se encontra
em condição de dependência, bem como autoridade. Reportando-se ao isomorfismo
normativo, DiMaggio e Powell (1983) apontam que o grau de profissionalização é
possivelmente o fator mais importante como mecanismo normativo a ser considerado para o
entendimento das pressões normativas do ambiente, podendo ser resultante da educação
formal ou da formação e manutenção das redes de trabalho. Quanto ao isomorfismo
mimético, se processa na adoção por parte de determinada organização, de procedimentos
e arranjos estruturais implementados por outras organizações, com a finalidade de reduzir a
incerteza ocasionada por problemas tecnológicos, objetivos conflitantes e exigências
institucionais (MACHADO-DA-SILVA e FONSECA, 1996). O mimetismo se processa
também pela verificação da atuação próspera de outra organização.
A sobrevivência das organizações, na abordagem institucional, depende da
capacidade organizacional de entendimento das regras, crenças, valores e interesses
criados e consolidados num determinado contexto ambiental. A forma de interpretar estes
aspectos, a fim de se posicionar frente às pressões isomórficas, são melhor explicadas pela
presença dos esquemas interpretativos, definidos como "pressupostos resultantes da
elaboração e arquivamento mental da percepção de objetos dispostos na realidade, que
operam como quadros de referência, compartilhados e freqüentemente implícitos, de
eventos e comportamentos apresentados pelos agentes organizacionais em diversas
situações. Nesse sentido, os valores são padrões de preferências racionalizadas por um

6

indivíduo e compartilhados por um grupo da organização, que influenciam as decisões
(MACHADO-DA-SILVA e FONSECA, 1993), enquanto que as crenças são pressupostos
subjacentes que fornecem aos atores organizacionais uma maneira de sentir o ambiente e a
organização (MACHADO-DA-SILVA, FONSECA e FERNANDES, 1999).
Sobre a idéia de campo organizacional, Scott (1991) define como o nível de
maior significância para a teoria institucional, pois se refere a um grupo de organizações que
constituem uma área reconhecida de vida institucional, onde são compartilhados sistemas
de significados comuns. Para Scott (1995), a identificação dos campos organizacionais tem
contribuído para o exame dos tipos de diferenciação e sistemas de ligações que surgem
entre os diversos conjuntos de organizações presentes numa localidade, bem como as
conexões não locais, as influências culturais, políticas e técnicas, havendo uma tentativa de
se fazer elos entre os níveis locais e societais. DiMaggio e Powell (1983, p. 148) afirmam
que os processos de definição institucional ou ‘estruturação’ do campo, consistem: "no
aumento do grau de interação entre as organizações; na emergência de estruturas de
dominação e padrões de coesão bem definidas; no aumento na carga informacional com as
quais as organizações devem competir; e no desenvolvimento de consciência mútua entre
os participantes num grupo de organizações que estão envolvidas em um empreendimento
comum”.
No aspecto prático, tem-se a preocupação com a validação empírica da
abordagem e da sua aplicabilidade no contexto brasileiro. Através de um estudo realizado
junto a uma organização familiar, Machado-da-Silva e Fonseca (1993) inserem a
perspectiva institucional no campo da análise organizacional, abrindo espaço para uma série
de estudos na área. Dessa forma, o campo da estratégia passou a abrigar boa parte das
pesquisas de validação empírica por meio da análise de diversas organizações brasileiras.
A abordagem institucional na área de estudos organizacionais, traduzida no
neoinstitucionalismo, ganha seu devido espaço a partir do final da década de 1980, com
pesquisas realizadas inicialmente em Santa Catarina e Paraná, posteriormente no Rio
Grande do Sul e Pernambuco, e atualmente em outros Estados brasileiros (VIEIRA e
CARVALHO, 2003). A predominância do paradigma funcionalista nos mostra a necessidade
de novas abordagens, constituindo um terreno fértil para o desenvolvimento de perspectivas
como a institucional.
Diante do que foi exposto, salienta-se a importância do estudo no sentido de
levantar e mapear o percurso dos esforços dos cientistas organizacionais, assentados na
abordagem institucional na academia brasileira.

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A PRODUÇÃO CIENTÍFICA NO BRASIL

A base de dados
As publicações consultadas no levantamento dos artigos foram a Revista de
Administração (RAUSP), editado pela Universidade de São Paulo; a Revista de
Administração Pública (RAP), editado pela Escola Brasileira de Administração Pública
(EBAP), filiada a Fundação Getúlio Vargas (FGV); a Revista de Administração de Empresas
(RAE) editada pela Escola de Administração de Empresas de São Paulo (EAESP), também
filiada a FGV; a Revista Organização & Sociedade (O&S), editada pela Universidade
Federal da Bahia; e a Revista de Administração Contemporânea (RAC), editada pela
Associação Nacional dos Programas de Pós-Graduação em Administração (ANPAD). Estes
periódicos foram escolhidos por serem os mais conceituados na área de Administração no
Brasil e terem sido utilizados em levantamentos anteriores com foco em diversas áreas
temáticas. O período de análise escolhido foi de 1993 até 2003, tendo em vista o marco de
introdução dos estudos da teoria institucional no contexto brasileiro. No período analisado,
foram consultadas todas as áreas temáticas, pois se pretendia verificar a abordagem
institucional na Administração.
Para a seleção dos artigos, foram estabelecidos alguns critérios que pudessem
caracterizar os textos dentro da perspectiva institucional. Com isso, foram utilizadas
algumas questões-chave divididas segundo os critérios de análise dos resumos, análise das
palavras-chave, análise do corpo do texto e análise das referências bibliográficas. Dessa
forma, foi possível criar algumas ferramentas que pudessem servir de parâmetro para
distingui-los de outras abordagens teóricas. Vale ressaltar que somente o cruzamento
destes critérios possibilitou a distinção. Uma vez que alguns artigos ora apresentavam a
perspectiva institucional logo no título ou resumo, ora apresentavam somente nas
referências bibliográficas. Na Tabela 1 são apresentados os critérios de forma mais
detalhada, bem como as perguntas-chave que caracterizam cada um deles.
TABELA 1 - CRITÉRIOS PARA A SELEÇÃO DOS ARTIGOS
CRITÉRIOS

QUESTÕES-CHAVE

Análise dos

Foi feita alguma menção à Teoria Institucional ou algumas de suas categorias analíticas, tais como

resumos

contexto ambiental, esquemas interpretativos, estruturas institucionais, isomorfismo ou estratégias
de ação?

Análise das

Foi citada alguma palavra-chave típica da abordagem institucional como estruturas institucionais,

Palavras-chave

campo organizacional, isomorfismo, ambiente técnico e ambiente institucional, esquemas
interpretativos, institucionalização ou contexto de referência?

Análise do

Foi apresentado algum sub-título ou parágrafo discutindo aspectos da teoria institucional e suas

corpo do texto

categorias analíticas?

Análise das referências Foi citado algum autor institucionalista como Selznick, Scott, Meyer, Berger, Luckmann, DiMaggio,
Bibliográficas

Powell, Zucker, Machado-da-Silva, Vieira ou Fonseca?

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Apresentação dos resultados
Depois de selecionados os trabalhos que apresentassem a abordagem
institucional, passa-se a realizar a tabulação com base na quantidade publicada
anualmente, no percentual de artigos institucionalistas em relação aos demais artigos, nas
instituições de ensino superior mais atuantes, na distribuição dos artigos por quantidade de
autores, nos autores mais prolíficos no Brasil e a quantidade de publicações internacionais
desses autores.
As tabelas com os resultados demonstram que poucos artigos foram publicados
fundados nessa abordagem. No entanto, uma análise temporal mostra uma tendência de
aumento, notadamente a partir de 2001, onde as publicações dobram a cada ano. A
evolução das publicações foram dispostas conforme a Tabela 2, onde são apresentados os
artigos por ano de publicação.

TABELA 2 - ARTIGOS SOBRE ABORDAGEM INSTITUCIONAL PUBLICADOS NO PERÍODO DE ANÁLISE
ANO

RAUSP

RAP

RAE

O&S

RAC

TOTAL

1993

---

---

---

01

NP

01

1994

---

---

---

01

NP

01

1995

---

01

---

---

NP

01

1996

---

---

---

01

NP

01

1997

---

01

---

---

02

03

1998

---

01

01

01

---

03

1999

---

---

01

---

---

01

2000

---

---

---

---

01

01

2001

---

---

---

02

02

04

2002

---

01

---

02

01

04

2003

---

03

01

03

02

09

TOTAL

00

07

03

11

08

29

NP - não publicado

Com base nos resultados constantes na tabela 2, pode-se observar algumas
peculiaridades. Quanto aos periódicos analisados, constata-se que a RAUSP não publicou
qualquer artigo institucionalista no período analisado. Tal situação ocorre, a priori, em
virtude da natureza desta publicação. Nos últimos anos a RAUSP tem firmado alguns
acordos de parceria com a Harvard Business Review (HBR) no sentido de alinhar a
publicação brasileira junto aos padrões estabelecidos pela pubicação norte-americana
(MARTINS e PUCCI, 2002; MARCOVITCH et alli, 1997). No entanto, Bertero, Caldas e
Wood Jr (1999) apresentam orientações diferentes em relação às duas revistas. Enquanto a
RAUSP tem uma orientação “não-positivista” e “administrativista”, a HBR é apresentada com
de

orientação

“positivista”

e

“administrativista”.

Mas

a

congruência

no

aspecto

“administrativista” não deixa de representar um certo alinhamento entre as duas
publicações. Outro ponto percebido durante a análise, foi que a FEA/USP em seu programa

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de pós-graduação em Administração adota um processo seletivo de caráter endógeno
(PPGA FEA/USP, 2004). Talvez, este fator exerça algum tipo de influência na produção
científica, uma vez que os autores mais prolíficos da perspectiva institucional estejam
lotados em universidades no Paraná, Santa Catarina e Pernambuco (Tabela 4).
Quanto ao aspecto quantitativo das publicações, nota-se que nos últimos anos
houve um crescimento substancial comparado ao ano de 1993, quando a Revista
Organização & Sociedade publica o primeiro artigo institucionalista no Brasil. Constata-se
um aumento de nove vezes no total das publicações. Entre os periódicos, o que apresentou
o maior crescimento foi a Revista Organização & Sociedade, onde constatamos também
uma maior estabilidade na distribuição dos artigos publicados ao longo dos anos.
Na Tabela 3, observa-se que este mesmo periódico se posiciona com destaque
no percentual de trabalhos institucionalistas em relação à produção científica total. Tal
ocorrência, análogo a RAUSP, se deve a natureza do periódico. Pois o fato da O&S ter uma
orientação mais voltada à organização como sistema social (MOTTA, 2003) e sendo a
Abordagem Institucional, de cunho sociológico, explica-se, portanto o porquê de ter sido
bem recebida na publicação baiana. Outra publicação de destaque na Tabela 3 é a RAC
que, mesmo sendo a mais jovem das revistas, apresenta-se como o segundo periódico com
maior número de artigos institucionalistas. Sendo uma publicação da ANPAD, têm a
oportunidade de ser plural. Uma vez que não há uma hegemonia de publicações por
instituições de ensino superior (IES). Já a RAP e a RAE, mesmo estando vinculadas a IES,
mantém uma posição intermediária nas publicações selecionadas. Na Tabela 3 são
apresentados os dados de forma numérica.
TABELA 3 - PUBLICAÇÕES SELECIONADAS E EDIÇÕES CONSULTADAS PARA ANÁLISE
PUBLICAÇÕES

EDIÇÕES

SELECIONADAS

CONSULTADAS

ARTIGOS
Total

Selecionados

%

O&S

1993 (v.1, n.1) a 2003 (v.10, n.28)

234

11

4,7

RAC

1997 (v.1, n.1) a 2003 (v.7, n.4)

192

08

4,2

RAP

1993 (v.27, n.1) a 2003 (v.37, n.6)

484

07

1,4

RAE

1993 (v.33, n.1) a 2003 (v.43, n.4)

346

03

0,9

RAUSP

1993 (v.28, n.1) a 2003 (v.38, n.4)

411

00

0,0

1667

29

1,7

TOTAL

Mesmo tendo periódicos com boas guaridas para as publicações institucionalistas,
observa-se o baixo percentual dessas publicações quando comparadas ao total da produção
científica em Administração. Tal fato ocorre porque a Abordagem Institucional, embora não
tenha esta limitação, tem sido utilizada predominantemente na área de organizações e
estratégia. Uma ínfima quantidade de artigos foi publicada fora destas áreas. Entretanto,
esta assertiva é complexa e certamente merecedora de estudos aprofundados, o que não se
constitui no enfoque do presente trabalho.

10

Sobre as IES que abrigam os pesquisadores da Abordagem Institucional, a
Tabela 4 fornece algumas informações a respeito. Um dado interessante é que a
Universidade Federal do Paraná (UFPR) e a Universidade Federal de Pernambuco (UFPE)
são responsáveis pela metade da produção científica na área. Sendo a primeira responsável
por quase o dobro da segunda. Tal fato é conseqüência das linhas de pesquisa existentes
nestas duas IES. Pois o Centro de Pesquisa e Pós Graduação em Administração (CEPPAD)
da UFPR, por meio do Curso de Mestrado, tem produzido um grande número de
dissertações com foco na Abordagem Institucional e o Programa de Pós Graduação em
Administração da UFPE, por meio da Agenda de Pesquisas do Observatório da Realidade
Organizacional, tem produzido uma série de pesquisas neste campo. Isso ocorre pelo fato
de existirem renomados pesquisadores nestes centros de pesquisa que compartilham da
perspectiva institucional como base teórica das investigações.
As outras IES, por estarem mais fragmentadas em suas publicações, sugerem a
influência não de centros de estudo e pesquisa, mas de pesquisadores isolados que
adotaram a perspectiva institucional como foco de análise em suas pesquisas.

TABELA 4 - PRODUÇÃO CIENTÍFICA POR INSTITUIÇÕES DE ENSINO SUPERIOR (IES)
IES

Nº DE ARTIGOS

%

% ACUMULADA

UFPR

12

31,6

31,6

UFPE

07

18,4

50,0

PUC-PR

04

10,5

60,5

UFSC

03

7,9

68,4

UFRGS

03

7,9

76,3

UFMG

02

5,3

81,6

EAESP-FGV

02

5,3

86,9

UFBA

02

5,3

92,2

UEM

01

2,6

94,8

EBAP-FGV

01

2,6

97,4

UnB

01

2,6

100

TOTAL

38

100

100

Na distribuição dos artigos por número de autores, a Tabela 5 apresenta alguns
dados interessantes sobre os artigos publicados. Com um percentual de 62,1% de artigos
publicados com dois autores, observa-se que a maioria dos trabalhos decorre de pesquisas
realizadas em programas de pós-graduação stricto senso, onde os autores, via de regra,
incluem seus orientadores como co-autores. No caso das publicações com um autor, temos
um percentual de 20,7%, o que demonstra um 1/5 das pesquisas são realizadas com a
reflexão de pesquisadores independentes. Já no caso de três, quatro ou mais autores,
temos um percentual acumulado de 17,2%, o que demonstra a pouca presença de trabalhos
desenvolvidos por grupos de pesquisa.

11
TABELA 5 - DISTRIBUIÇÃO DA PRODUÇÃO CIENTÍFICA POR AUTORES
Nº DE AUTORES

Nº DE ARTIGOS

%

1

06

20,7

2

18

62,1

3

02

6,9

4 ou mais

03

10,3

TOTAL

29

100

Sobre os pesquisadores, a Tabela 6 apresenta os três autores mais prolíficos na
produção científica sob a perspectiva institucional, ou seja, os que mais publicaram no
período de análise. No topo da lista, com o dobro de publicações do segundo colocado,
figura o Prof. Clóvis Machado-da-Silva da UFPR, responsável pela publicação do primeiro
artigo institucionalista em 1993 na primeira edição da O&S. Os outros dois autores, por sua
vez, foram orientados por Machado-da-Silva em cursos de pós-graduação realizados na
UFSC e na UFPR.
A tabela 6 mostra apenas três autores porque eles são responsáveis por quase
metade do total publicado. Em relação aos demais autores, não são citados em virtude de
terem inexpressivos percentuais de contribuição, pois a distribuição é muito fragmentada,
sendo quase um artigo por autor ou dupla de autores.
Outra informação relevante é a IES de vinculação dos autores. Corresponde
quase perfeitamente com a classificação apresentada na Tabela 4, representando a
influência dos pesquisadores junto a suas IES.

TABELA 6 - OS AUTORES MAIS PROLÍFICOS NO BRASIL
AUTOR

NÚMERO DE AUTORES

TOTAL DE
ARTIGOS

1

2

3

IES

4 ou mais

Clóvis L. Machado-da-Silva

11

04

07

---

---

UFPR

Valéria S. da Fonseca

04

---

04

---

---

UFSC

Marcelo M. Falcão Vieira

03

01

01

---

01

UFPE/EBAP

Em resposta as observações feitas por Bertero, Caldas e Wood Jr (1999) sobre a
qualidade mundial da produção científica brasileira, resolvemos avaliar a produção científica
dos três autores institucionalistas mais prolíficos no contexto. A fonte dos dados foi a
consulta dos currículos acadêmicos junto ao Sistema Plataforma Lattes, mantido pelo
Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Por meio desses,
teve-se acesso às publicações em periódicos acadêmicos de nível internacional e aos
trabalhos apresentados em congressos e encontros internacionais de primeiro nível que
foram registrados pelos autores em seus respectivos currículos. Nesta análise, constatamos
que realmente há pouca representatividade destes pesquisadores nos fóruns internacionais.
Confirmando, em parte, o pouco impacto da produção científica no cenário internacional. Em

12

parte porque a responsabilidade pelo baixo impacto da produção brasileira não é
inteiramente dos pesquisadores. Pois como afirma Roesch (2003), o desempenho da
produção científica é limitado em virtude de um somatório de fatores, tais como a falta de
recursos para pesquisa, a própria natureza da ciência Administrativa – sedenta por soluções
rápidas para os problemas organizacionais e, sobretudo, pelo comportamento dos
pesquisadores no que tange à falta de rigor metodológico, ao comodismo, impaciência e ao
individualismo. Na Tabela 7 é apresentada a participação dos autores institucionalistas no
contexto internacional.

TABELA 7 - PUBLICAÇÕES DOS AUTORES MAIS PROLÍFICOS EM PERIÓDICOS E EVENTOS INTERNACIONAIS
AUTOR

TOTAL

PERIÓDICO CIENTÍFICO OU
EVENTO INTERNACIONAL
Latin American Business Review - EUA
20 th Annual Conference of the BALAS´2003 - Brasil
19 th Annual Conference of the BALAS´2002 - EUA
18 th Annual Conference of the BALAS´2001 - EUA

Clóvis Luis
Machado-da-Silva

10

17 th Annual Conference of the BALAS´2000 - Venezuela
16 th Annual Conference of the BALAS´1999 - EUA
14 th Annual Conference of the BALAS´1997 - Brasil
17 th Colloquium of EGOS´2001 - França
11 th Colloquium of EGOS’ 1993 - França
16 th International Conference: Organizations and Symbols of Competition’1998 - Brasil
Revista Organizações e Trabalho - Portugal

Marcelo Milano
Falcão Vieira

18 th Annual Conference of the BALAS´2001 - EUA
05

17 th Colloquium of EGOS´2001 - França
15 th Annual Conference of the BALAS´1998 - EUA
11 th Colloquium of EGOS’ 1993 - França
Academia Revista Latinoamericana del Administración - Colômbia

Valéria Silva
da Fonseca

04

Revista Información Tecnológica del Chile - Chile
14 th Annual Conference of the BALAS´1997 - Brasil
11 th Colloquium of EGOS’ 1993 - França

Os resultados acima apresentam um bom número de publicações internacionais
por parte dos autores institucionalistas mais prolíficos no Brasil. Entretanto, a maioria delas
em eventos da Business Association Latin America Studies (BALAS), que tem por objetivo
divulgar pesquisas sobre a América Latina e em periódicos também latino americanos. Em
eventos como o Meeting of the Academy of Management (AOM), realizado nos EUA,
considerado o maior encontro de Administração do mundo (Quintella, 2003) e em periódicos
como Administrative Science Quartely ou Organization Studies, consideradas publicações
de primeira linha no cenário acadêmico mundial, tem-se pouca ou nenhuma publicação,
particularmente no caso dos pesquisadores citados anteriormente.

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CONSIDERAÇÕES FINAIS

Sendo este estudo uma etapa parcial de um projeto maior, suas conclusões
também apresentam um caráter parcial. Uma vez que, outras análises serão desenvolvidas
em outras etapas da pesquisa. Contudo, algumas considerações cabem ser feitas à guisa
de uma conclusão.
Em primeiro lugar, os números mostram um cenário de tímida produção de artigos
sob a égide da teoria institucional. Por outro lado, apresenta uma tendência de crescimento
nos últimos anos. Num segundo momento, constata-se uma concentração das publicações
em IES do Paraná, Santa Catarina e Pernambuco. A implicação disso é o desenvolvimento de
pesquisas regionais também concentradas. Deixando outras regiões, igualmente ou até mais
importantes – do ponto de vista sócio-econômico, desprovidas desta perspectiva de análise.
Por último ressalta-se que, mesmo com pouca expressividade no bojo das
pesquisas em administração e sem impacto nos periódicos e eventos de primeira linha no
cenário internacional, a Abordagem Institucional traz consigo uma perspectiva de análise
que enriquece o debate local, no sentido de entender a realidade organizacional de uma
forma mais ampla, aumentando o escopo de visão e fornecendo lastro teórico à produção
científica nacional. No entanto, não obstante a escassez de recursos para pesquisa, como
destaca Roesch (2003), a melhoria da produção científica brasileira depende não só de
novas orientações metodológicas, mas principalmente de uma mudança de cultura por parte
dos pesquisadores brasileiros que, muitas vezes no afã de publicar um working papper, não
amadurecem o trabalho e deixam de expô-lo às críticas de outros pesquisadores. Impedindo
a criação de uma teoria local que pudesse ser inserida no circuito científico internacional.

REFERÊNCIAS
ARKADER, Rebecca. A pesquisa científica em gerência de operações no Brasil. Revista de
Administração de Empresas. v. 43, n. 1, p. 70-80, Jan./Mar. 2003.
BERGER, Peter L.; BERGER, Brigitte. O que é uma Instituição Social? In: FORACHI, Marialice e
MARTINS, José de S. Sociologia e sociedade: leituras de introdução à sociologia. Rio de Janeiro:
LTC, 2002.
BERGER, Peter L.; LUCKMANN, Thomas. A construção social da realidade: tratado de sociologia
do conhecimento. 12.ed. Petrópolis: Vozes, 1985.
BERTERO, Carlos O.; CALDAS, Miguel P.; WOOD JR, Thomaz. Produção científica em
administração de empresas: provocações, insinuações e contribuições para um debate local. Revista
de Administração Contemporânea. v. 3, n. 1, p. 147-178, Jan./Abr. 1999.

